Arquivo Mensal março/2008

Inculta e Bela… e New Rich

Dois estudos divulgados pela Folha Online mereciam a devida atenção da maioria das pessoas, mas infelizmente, tende a passar em brancas nuvens: Quase 12 milhões de brasileiros deixam classes D/E em um ano, porém, só 1/6 dos estudantes brasileiros chegará à universidade. O aumento do poder aquisitivo do brasileiro, ainda não refletiu na nossa educação.

Dar o peixe e ensinar a pescar são duas coisas importantes e uma não anula a outra. Graças a Deus, pelo menos na teoria, quem estava na linha da miséria absoluta, está agora tendo acesso a comida. Dar o peixe é um gesto de humanidade. Contudo, podemos concluir que o povo brasileiro ainda não aprendeu a principal lição da escola da vida: investir na educação é o mais importante para o país continuar crescendo de forma sustentável. Não ensinar a pescar é crueldade pior do que deixar a morre de fome.

Segundo o primeiro estudo (Folha Online, 26/03/2008 – 16h12, Em cima da hora – Principal):

As classes mais baixas da população, D e E, deixaram de ser maioria no Brasil. O estudo foi feito em 2007 pela financeira Cetelem em parceria com a Ipsos, o número de brasileiros nas classes mais baixas era de 72,9 milhões, cerca de 39% da população. Isso significa que 11,9 milhões de brasileiros passaram para classes mais altas em um ano, já que, em 2006, eram 84,8 milhões de brasileiros na base. De acordo com o estudo, a classe C recebeu, tanto das mais baixas (D e E) como da mais alta (A e B), quase 10 milhões de integrantes, passando de 66,7 milhões em 2006 para 86,2 milhões em 2007, o que significa 46% da população. O grupo que está nas classes A/B, por sua vez, reduziu de 32,8 milhões de pessoas em 2006 para 28 milhões em 2007, o que representa 15% da população.

Já o outro estudo (Folha Online, 25/03/2008 – 15h26 Em cima da hora – Principal):

O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira que somente um sexto dos estudantes brasileiros no ensino médio deve chegar à universidade. Segundo ele, os alunos que não são inseridos no mercado de trabalho têm pouco interesse em permanecer na escola. Clique aqui para assistir à sabatina. “Um ano de escolaridade, no Brasil, pode significar um incremento de 15% na renda, o que é muito”, afirmou o ministro ao defender as medidas adotadas pelo governo para evitar a evasão. Ele ponderou ainda que, entre meninas de 15 a 17 anos que deixaram os estudos, um terço são mães. Para Haddad, o ensino médio, atualmente, apesar de todas as fragilidades, “está organizado para fazer a diferença para o jovem de baixa renda”. “Quem cursa o ensino médio tem exercício da cidadania superior a quem não o faz.”

Será que dá para alguém dizer ao senhor ministro que ele não está fazendo o dever de casa?! A página sobre o exercício da cidadania foi arrancada do livro do ensino médio brasileiro, então como esperar que uma população mal informada e mal educada possa exercer plenamente seus direitos e deveres cíveis? Parafraseando Jesus Cristo (no livro de Mateus 07:24 a 29), o homem prudente edifica sua casa sobre as rochas, para que vindo a chuva e correndo as torrentes e soprando os ventos contra a casa, ela não caia. Porém, o homem insensato edifica sua casa na areia e ai vem às chuvas, as torrentes e os ventos e a derrubam, sendo grande a sua ruína.

Querer melhorar o Brasil somente pela economia, esquecendo da educação, é a mesma coisa de construir uma casa na areia. A base sólida que um país pode ter está na sua educação. A cultura será reconstruída pela educação. A qualificação profissional, os valores civis/éticos, a responsabilidade social e consciência ambiental e o próprio orgulho nacional serão solidificados na rocha que é a educação. Sem essa rocha, não há como o Brasil crescer de forma sustentável e ai vindo os ventos da recessão americana… as torrentes de uma crise asiática… e ai, já sabemos de cor e salteado esta lição.

Sem mais delongas, quanto ao título deste ensaio, não estou me referindo a “Última flor do Lácio, inculta e bela”, do famoso poema de Olavo Bilac. Não é a nossa língua portuguesa que me inspirou a escrever, mas à população brasileira. O termo “inculta” fica por conta da falta formação acadêmica, falta de investimento na infra-estrutura acadêmica, e de uma política pública que promova um ensino de qualidade. Já justifico que nem por isso a população perdeu o cetro da beleza e continua com uma bela diversidade cultural riquíssima e uma miscigenação mais bela ainda.

Pejorativo “new rich” é por conta da população que está ganhando mais, mas não sabe como gastar esse dinheiro. Em vez de investir em informação, formação ou no próprio futuro, está gastando como os fúteis new rich dos anos 90, que em plena época de recessão econômica, tinham dólares e compravam carros importados e ignoravam o misere da população cada vez mais maltratada.

Tendo ou não ensino médio de qualidade, tendo ou não uma política educacional com bases sólidas, com muito ou pouco dinheiro, a população brasileira vai continuar inculta, pois não a ensinaram a pescar e new rich, pois vai gastar com o peixe podre e arrotar caviar. Mas é bela, gente… é bela…